Terça-feira, 4 de Outubro de 2011

A, B… Cidadania – aprender, apreender ou empreender?

«Se os Homens continuarem a “aderir”, a “ajustar-se” a um mundo já “feito”,
mergulharão numa nova “opacidade”». A advertência, mais actual do que nunca, é do já
falecido pensador e pedagogo brasileiro Paulo Freire, mentor da conscientização como
paradigma que visa permitir ao indivíduo s’engager de modo crítico no mundo, preparando-se
para o transformar. Um “do it by yourself”, “learner-centred”, típico dos mecanismos de
educação informal (decurso da vivência do quotidiano) e não formal (extra-escolar, no âmbito
da formação profissional e profissionalizante), perfeitamente adaptável aos mecanismos
tradicionais de educação formal (aquisição de competências para a obtenção de um grau
académico), como expressão de inovação e empreendedorismo.

Depois do Decreto-lei n.º 6/2001 institucionalizar a formação cívica como nova área
curricular não disciplinar a implementar nas escolas e do Conselho da Europa ter consagrado
2005 como o ano Europeu da Cidadania pela Educação, como é que a inovação e o
empreendedorismo podem transformar a Educação para a Cidadania numa vivência de
aprendizagem ao longo da vida, alicerçada numa cultura de Democracia participativa, crítica e
consciente dos Direitos e Deveres Humanos?

Ao inovar na lógica transversal subjacente, em que a educação ao longo da vida
reforça mais a educação para os deveres do que para os direitos, a educação para o respeito
mais do que a tolerância, a interculturalidade e a intergeracionalidade mais do que a hierarquia
ou a segregação, a desconstrução da desinformação mais do que a construção da informação;
Ao inovar na celebração da diferença pela diferença, das origens étnicas, culturais,
religiosas, políticas, de classe, de idade ou de orientação sexual, assumindo-se de vez o
lema “todos diferentes, todos diferentes”;

Ao inovar nos métodos/metodologias utilizadas, visto o “learning by doing” pressupor
um reforço das metodologias activas e participativas (por exemplo, o Teatro do Oprimido de
Augusto Boal) e a introdução de manuais expressamente dirigidos ao trabalho com a juventude
(Packs Educativos e Formativos como o Compass, manual do Conselho da Europa em
Educação para os Direitos Humanos);

Ao inovar nos actores envolvidos, trazendo para o espaço-escola o espaço-sociedade-
civil local, impulsionador do voluntariado e da aprendizagem em contexto D-learning
(Democracy learning), num projecto de parceria de saber ser, saber estar e saber agregar no
mesmo espaço plataformas estatais e não estatais promotoras de cidadania;

Ao inovar na co-educação, entre-pares, em que a igualdade de oportunidades se
espelha não só em imagens e linguagens menos reprodutoras de desigualdades entre homens
e mulheres, mas sobretudo na partilha de valores entre o|a aluno|a e professor|a, em que os
primeiros são os verdadeiros protagonistas do seu próprio processo de formação (e não
actores passivos, destinatários e depositários de “bíblias quasi sagradas”) e, os segundos,
facilitadores do processo de auto-aprendizagem que, entretanto, se desenrola autonomamente.

Ao inovar nas novas tecnologias de comunicação, não só no que comummente se
refere às plataformas de E-learning para os manuais escolares, mas na auto-criação e
dinamização de blogs, fóruns e myspaces adaptados às temáticas que devem ser os|as alunos|
as a definirem como prioritários para discussão, mesmo se com códigos SMS próprios.

Inovar na conscientização que a passagem de um mundo dado para um mundo
doador é o grande desafio que se afigura hoje ao ensino.

Inovar, porque mais do que se limitar ao sentido unilateral que em nada separa o
aprender e o apreender (aquisição de conceitos e competências), se espera que se saiba
reinventar no próprio direito e dever a empreender (-se).

Só assim poderemos ver cidadãos|cidadãs auto-formados|as e conscientes que a
cultura da exigência não é sinónimo de cultura de reivindicação, mas sim de cultura da
excelência!



Ana Isabel Xavier
Professora Universitária | Presidente da Direcção da DECIDE

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